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sábado, 18 de novembro de 2017

Nova Délhi, 16 e 17 de novembro de 2017.

História de séculos ainda viva.
Estes dois últimos dias foram para fechar com chave de ouro minha estada na Índia. Não tenho como contar tudo que fiz entre ontem e hoje, mas vou falar de três lugares. 
Gurudwara Bangla Sahib
O primeiro faz jus ao posto que ocupa no TripAdvisor de número um dos lugares para conhecer em Délhi. É o Gurudwara Bangla Sahib, templo Sikh. Bonito, muito bonito, agradável, bom astral, excelente recepção. Fiquei encantado. Sempre tive simpatia por este povo que ao menos uma vez foi vítima de tentativa de genocídio. Minha simpatia aumentou com esta visita. 
Comida para a galera. Tudo limpo e bem feito.
Só o fato de neste templo servirem comida gratuita para trinta mil pessoas durante a semana e até cinquenta mil nos sábados e domingos já fala muito sobre eles. 
Aprendi no templo que eles são monoteístas mas não têm nenhuma figura que seja associada a Deus e portanto eles reverenciam um livro que, contendo o ensinamento de seus dez sábios, foi sintetizado por um deles no início do século XVII com sua teologia, sendo assim uma religião relativamente nova. No templo não tem imagens e as pessoas fazem reverências e sinais perante uma espécie de altar onde está o livro. Uma música agradável, acompanhada com uma cantoria com frases do livro sagrado sai do Templo e emana por todo o ambiente. Enfim, imperdível conhecer este lugar.
povo trabalhando
Outro lugar que merece menção é a Old Délhi, a cidade velha. Ontem de manhã, após minhas quinze horas de viagem, sem possibilidade de entrar no meu quarto por ser muito cedo, resolvi sair para caminhar por lá. Basicamente é um mercado a céu aberto, onde se vende de tudo, produtos e serviços. Nas calçadas vi barbeiros, sapateiros, costureiros, e mais uma infinidade de serviços sendo prestados. Os profissionais chegam em pequenos veículos com um baú onde estão suas ferramentas de trabalho. Ou então possuem pequenas lojas que não tem suficiente espaço para suas atividades, e servem apenas para guardar o material de trabalho. Muita gente, pouco espaço, tem que se virar. 

Old Délhi tem ruas sujas, cheiro desagradável, pessoas como num formigueiro, inclusive dormindo na calçada, doentes atuando como pedintes, uma infinidade de comidas de rua, um emaranhado de fios elétricos que impressiona, alguns baixos a ponto de termos que desviar deles. 
Mesquita em Old Délhi.
Enfim, uma bagunça. Mas muito legal de ver... particularmente no mercado de especiarias, onde me senti no umbigo do mundo, não em termos espacial mas sim temporal. Me explico? As especiarias indianas deram movimento  a humanidade tanto quanto o ouro. E acho eu que antes dele. Fiquei ali vendo aquelas lojas e as enormes cargas de ervas e afins que movimentaram o mundo e fizeram a Europa traçar rotas e rotas para estabelecer comércio com este país. Ou a Inglaterra começar negociando exatamente seus condimentos, pigmentos, temperos e chás, e terminar dominando este continente que é a Índia. Fiquei ali vendo e viajando naqueles aromas. Senti como se estivesse cheirando a história ou vendo-a ensacada, sendo vendida a granel ou no varejo. Sim, ali vi a história da humanidade em atacado. 
Este é o tumulo de Gandhi. Nada a ver com o
templo indiano que descrevi ao lado
Por terceiro vou contar do maior templo Hindu de toda a Índia. Mas construído a poucos anos atrás, já neste século. Um Guru teve a visão de fazê-lo. Absolutamente monumental. Demorou apenas cinco anos para ficar pronto... impressionante.  Claro que lindo. Mas... achei um pouco fake... muita modernidade... entrada grátis, celulares, câmaras, bolsas ou comidas não podem entrar... mas... lá dentro vendem fotografias, “passeios” através de filmes em algumas salas fechadas, show de luzes, comidas, e uma enorme loja de presentes. Me senti meio em uma Disneylândia Hindu... mas que vale a pena ir, vale.
E teve mais, mas, como eu disse, Délhi não cabe em uma pequena crônica. Agora já no aeroporto fico pensando que conhecer este país e o sonho de consumo de muita gente. E todos têm razão. 
Cena urbana...
Esta curta viagem por este longo país só reforça esta percepção que generalizada, visitar a Índia é um programaço. Estou aqui pensando também na saudade que vou sentir da comida... ainda bem que a mala está cheia de lentilhas, ervilhas, temperos, espécies, uns quilinhos de arroz e outras coisinhas... para manter um pouco do sabor da Índia comigo, ao menos por algumas semanas...
Vou terminar com uma frase que meu anfitrião no templo Sikh me disse: “Ser feliz é simples. Difícil é ser simples!”
Chega de caminhar por agora, este ano não conto mais!

Pessoal comendo no Templo
Sick. Não serve só pobres, como
acreditam em igualdade e humanidade,
seus dois pilares, qualquer um pode comer ali

Crianças indo ver o tumulo de Gandhi

Eu. O outro é o Gandhi...
Comidas...

Comidas...


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Cordilheira do Himalaia, 14 e 15 de novembro de 2017.

Eu e meus anfitriões.
Vivemos muitos tempos ao mesmo tempo, cruzados em determinado espaço. Acho que do ponto de vista da física esta afirmação está equivocada, mas não sei expressar de outro modo o que tenho visto aqui na Índia e em particular o que vivi nestes dois últimos dias.
O grupo da viagem, 42 pessoas.
Segunda feira, dia 13, saímos de Deli à meia noite, cinco horas depois do previsto, em direção ao Norte, uma cidade chamada Nainital, já Cordilheira do Himalaia. De lá seguimos para a vila Supi Ramgarh, uma comunidade rural relativamente isolada. Para cruzar os menos de 35O km foram onze horas de caminho em uma Van para 16 pessoas, apertada e desconfortável. A viagem pelas estradas estreitas, sem acostamento, curvas fechadas, com gente caminhando às suas margens e a forma camicaze como eles dirigem não foi exatamente agradável. Mas os dois dias e uma noite que passamos lá foram muito interessantes. 
Vista de parte da vila Supi Ramgarh
Ficamos, como eu disse, em uma comunidade de agricultores, nos hospedando com eles em pequenos grupos de duas ou três pessoas. Mais precisamente agricultoras, porque foi um consenso entre os visitantes que só vimos mulheres trabalhando no campo. 
Nosso quarto - onde melhor dormi em toda minha viagem
Nos alojaram em quartos de hóspedes que eles construíram com apoio de alguma ONG. Muito legal. Seus nomes: Shankar Bisth e Chandra Dave e os filhos Krishna e Vikram. Os jovens falavam um inglês suficiente para a comunicação, o pai só algumas palavras e a mãe, sempre lindamente vestida, nada. Ainda assim nos entendemos, com um namastê, um thanks ou alguns gestos. Nos trataram muito bem, com destaque especial para a comida muito bem preparada, à base de produtos cultivados por eles e servida no solo, sobre uma toalha sempre limpa.
Banheiros fora de casa, um para banho de caneca e outro com uma patente ao chão, o que nos exige joelhos fortalecidos. Tudo muito bem cuidado. 

Ferrarreria do povoado
Deixa eu voltar um parágrafo e dar um exemplo do que tentei dizer sobre os tempos cruzados. Aqui na comunidade tem um ferreiro. Muito muito artesanal. Forno bem pequeno para temperar o ferro, pedra para batê-lo, fole tocado à mão via uma manivela para maior eficiência, marretas, plainas e foices feitos de forma totalmente artesanal. E na mão do ferreiro um celular. Uma atividade profissional anterior à revolução industrial turbinada por uma tecnologia que só se popularizou no século XXI. Sempre gosto destas cenas e não é a primeira vez que descrevo algo assim no blog. Aqui vi vários exemplos como este, mas não só aqui, com olhos atentos veremos que muitos tempos se entrecruzam nos nossos cotidianos.
Ontem depois do almoço descansamos um pouco e demos uma volta pela comunidade. Cedo se fez noite e depois do luxuoso jantar nos recolhemos. Não sem antes ter a oportunidade de ver a senhora Chandra preparar o chapati, o pão mais comum por aqui, na sua própria cozinha, simples e bem equipada, com utensílios de primeira, entre barro e aço inoxidável. 
Comemos chapati com dois pratos diferentes, um à base de batata e outro à base de folhas de mostardas. Tanto no almoço quanto na janta nos ofereceram um pote de iogurte natural, muito bem feito por eles. 
Na cozinha, com a Chandra
Ao escurecer a temperatura começou a cair, e muito, afinal estávamos a mais de dois mil metros de altura. Nosso anfitrião trouxe para nosso quarto uma pequena “lareira portátil”, com brasas ardendo sobre um recipiente de latão. Para tudo neste mundo há uma solução simples e barata...
Acordamos hoje, eu Marcelo, quase nove da manhã, depois de onze horas de sono quase direto, quebrado por um xixi encapotado e ao tempo gélido (menos de dez graus). Tomamos um chá de massala, ficamos conversando um pouco sobre a lida deles e fomos passear, visitando casas na mesma Montanha, algumas delas também com pessoas do nosso grupo. 
Talvez o cultivo que eu tenha mais visto aqui seja maconha. O senhor me contando que fuma e fica assim ó: neste momento ele pôs suas mãos ao ar, esticou seus braços na lateral, fechou os olhos meteu um sorriso no rosto. Ri muito...

"Lareira" portátil.
Almoçamos, trocamos fotos e presentinhos, nos despedimos e descemos a montanha, nos encontrando com todo o grupo outra vez. Mais fotos e começamos a longuíssima viagem de volta. Pneu furado, engarrafamento ao cruzar algumas cidades, banheiro, lanches e janta (no restaurante de um Hotel Radisson que estava à beira da estrada. Acho que alguns europeus queriam um ar mais refinado...). E ainda teve uma longa discussão entre os motoristas e nossos anfitriões, renegociando valores da viagem, só resolvida com a chegada da polícia. Como a conversa toda durou mais de uma hora, depois da meia -noite, foi em híndi e eles não me contaram nada, eu mesmo coloquei legenda... Tudo isto fez a viagem de volta ser ainda mais longa. Um total de 16 horas para 350 km. Duvida? Você não imagina as coisas que acontecem neste país... Eram seis da manhã quando chegamos ao ponto de partida. Peguei um táxi para o hotel em que ficarei nas próximas duas noites, onde cheguei às sete da manhã. Este dia que começa conto amanhã. Tenho só dois dias de Deli antes de voltar para casa!

Almoço luxuoso

Pimentas, ervilha, feijão e maconha...

A Van...

A Van por dentro... pensa...

Deli, 12 e 13 de novembro de 2017.

Um dos ministérios na zona governamental, Delhi.
Os dois dias de Assembleia, ontem, domingo 12 e hoje, segunda 13, correram sem grandes emoções. Na Assembleia, os assuntos democráticos pertinentes à IFOAM, definições para ações nos próximos três anos, eleição do World Board e, como de praxe, definição da próxima sede do Congresso. Será no norte da França, em 2020.
Vandana Shiva
Digo sem grandes emoções, mas não sem nenhuma emoção. Afinal, Deli por si só é emocionante. Encontramos tempo para algum passeio. No domingo nosso motorista do riquixa (tuco-tuco em uma linguagem mais internacional) nos levou por uns dólares a mais para visitar a região onde fica o parlamento, casas do presidente e do primeiro ministro e os ministérios mais importantes. São todos palácios enormes, lindíssimos, construídos pela Inglaterra para seu séquito imperial e que hoje sediam o Governo Indiano. Uma suntuosidade de impressionar.
Hoje de tarde fomos rapidamente visitar o Indian Gate. Um monumento construído depois da primeira grande guerra como forma de homenagem aos combatentes indianos. Foram lá morrer pela Inglaterra...
Delhi e seus macacos, pelas ruas
Vir a Índia necessita uma certa ciência. Se você se incomodar com muita gente ou com a vontade deles em ganhar um pouco mais em uma venda ou em uma corrida de táxi ou algo equivalente o stress pode ser grande. Te pressionam bastante. O segredo óbvio é não se estressar. É o que eu faço! Perguntam, eu respondo, colocam um preço eu negocio, se achar caro vou em outro. Além disto os preços aqui são muito baratos, e por vezes me vi negociando um táxi de 150 para 100 rúpias, o equivalente a se preocupar com uma diferença de sete para cinco reais... seguramente melhor que estes dois reais fiquem com eles do que comigo...
Cena Urbana, um pequeno Templo indiano
Outra fonte potencial de estresse ou que podem deixar a viagem desagradável são os pedintes nas ruas. Lixo por todo lado também não é muito bom de ver. Encontrar-se com alguns enfermos na rua nunca é um bom programa... cheiro em muitos lugares também pode incomodar... vacas na rua, não por elas em si, mas porque elas também urinam e defecam sem pedir licença... tem mais...
Então, minha sugestão: quer vir a Índia, lê um pouco antes para não passar o dia todo reclamando do que encontrar por aqui. Um alemão amigo meu me respondeu ao meu “tudo bem?”: “tentando sobreviver ao caos”. Minha olhada sempre tentar ser outra, mesmo que às vezes eu também me pegue reclamando de algumas das coisas que mencionei acima. Tento olhar a beleza da organização em meio ao caos, da relativa segurança, da amabilidade de todos, mesmos os que te cobram muito a mais do valor da mercadoria ou serviço. Não dá para vir para Índia e reclamar da comida e seus condimentos o tempo todo. Quer uma comida blasé ou minimalista? Tenta a Noruega...

Porta da Índia
Estou eu aqui defendendo a Índia... acho que porque me cansei de tanta gente falando mal dela aqui no Congreso. Sei que ela, a Índia, não precisa da minha defesa, mas mesmo assim me coloco à disposição... estar aqui é uma oportunidade muito interessante.

sábado, 11 de novembro de 2017

Deli, 10 e 11 de novembro de 2017.

Bazar em Pahar Ganj
Ontem me despedi do Congresso Mundial de Agricultura Orgânica. Hoje foi o último dia, mas nós três, Romeu, Luiz e eu, resolvemos passear um pouco já que nos dois próximos dias estaremos envolvidos na Assembleia Mundial do IFOAM.
Grupo de uma das apresentações
culturais no Conresso
Bom participar do Congresso. Bom mas não ótimo. Discussões e apresentações repetitivas. Parece que o mundo da Agricultura Orgânica anda perdendo parte da criatividade e ousadia que sempre o caracterizou. Uma pena, mas cabe a quem vive neste mundo resgatar algo da sua capacidade de iniciativa e por um pouco de pimenta nesta receita. Ou temperos, como os que enchem meu paladar de alegria aqui nesta parte do mundo.
Pela manhã, depois de um farto, tranquilo e conversado café da manhã, fomos a um shopping, perto do hotel onde estávamos, dar uma olhada nas lojas e comprar lentilhas e ervilhas secas em um supermercado. No início da tarde saímos deste hotel internacional para um hotel local. Fomos de um quarto de R$ 500 para um de R$ 110. O Hindustan Backpackers é um hostel. Simples mas com um quarto individual suficiente. Coisa dos meus filhos, que insistem em me ensinar a ficar em hostel. Estou pagando R$ 110 e pagaria R$ 27 (sete euros) se quisesse dormir em uma cama em um quarto com outras sete camas. Calma filhos, um passo de cada vez...
Meu quarto no Hindustan Bacakpapers
O quarto está bem razoável, mas o lugar deste Hostel é o que ele tem de melhor. No centro da cidade, perto da Old Deli. Tráfego, poluição, buzinas imparáveis, luzes intensas, sujeira, em alguns lugares música alta e muita gente. Uma fealdade das casas, sobrados e pequenos edifícios que impressiona. A cidade não é bonita, mas em alguns lugares ela capricha... neste caso, é que a rua do hostel está ao lado e ainda guarda resquício do imenso shopping (bazar) a céu aberto que é esta parte do bairro de Pahar Ganj. Tudo isto seria de assustar se Delhi não tivesse um ar de segurança. 
Ainda estou me perguntando porque este ambiente que descrevi acima é agradável, mas o fato é que caminhamos por toda esta verdadeira Babel e nos sentimos bem, leves e tranquilos. Creio que fruto da amabilidade das pessoas, mas não me surpreenderia se houvesse uma ambiência de paz, por um componente mais metafísico. Mas eu que não me arrisco a dizer o que, a chance de falar bobagem seria grande. 
Delhi...

Durante o passeio vimos muitas coisas interessantes e compramos alguns tecidos, cremes, grãos, chás e temperos indianos. Ninguém me assaltou, nem perto disto, mas que paguei mais do que um local pagaria por algumas das coisas que comprei, isto eu sei que paguei.
De noite fomos atrás de um restaurante um pouco melhor. Achamos uma comida excelente, em ambiente apenas razoável. Chama-se “Wok in the Clouds”, e fica no Khan Market, um lugar com alguns bares, restaurantes, cafés. Pode ser que eu tenha visto um Night Club também...
Enfim, bom estar em Delhi. Que cidade interessante, que país diferente. Que viagem...

Loja de tecidos
Amanhã tem feira de produtos ecológicos relativamente perto de onde estamos hospedados. Segundo me disseram é semanal e amanhã estará como em edição especial por causa do Congresso. Oba, Feira de Produtos Ecológicos é meu ecossistema preferido - cedo estarei lá!

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Delhi, 08 e 09 de novembro de 2017.


Debate de hoje no Congresso Mundial
de Agricultura Orgânica
Ontem e hoje foram dias de trabalho aqui na Índia. Em atividades dentro do marco do Congresso Mundial de Agricultura Orgânica. Momentos de mais trabalho e menos passeio, nem por isto pouco agradáveis. Pelo contrário, rever pessoas com quem já tive oportunidade de trabalhar em outros momentos e conhecer novas, conversando sobre aspectos da realidade do desenvolvimento da Agricultura Orgânica em diferentes lugares do mundo é bastante prazeroso.
Tradição indiana no Congresso -
Tecelões de fio de algodão
Hoje no Congresso cumpri a tarefa que me trouxe aqui. Uma breve participação em um debate sobre as formas de garantir a qualidade do produto orgânico, dentre elas os Sistemas Participativos de Garantia. O bom é ver como este assunto, marginal há dez anos atrás, é hoje uma realidade em mais de cem países do mundo e com muita presença nos eventos internacionais.
Como não gosto de falar inglês, possivelmente por falar mal, minhas intervenções neste caso são curtas. E tento usar frases que possam de alguma forma ficar. Uma delas hoje foi que o mundo da Agricultura Orgânica está precisando de menos regras e regulamentos e de mais amor. Quem sabe esta onda pega?
Feira de sementes
O mais interessante do dia foi visitar a Biofach Índia. A feira mundial de produtos orgânicos, Biofach, que acontece todos os anos em Fevereiro, na Alemanha, tem suas edições regionais. Uma delas é na Índia e não por coincidência está sendo organizada junto ao Congresso. Muito melhor do que ouvir palestras é visitar os estandes com produtos orgânicos oriundos de várias partes do mundo, mas principalmente de diferentes regiões da Índia. Só lamento que a estética da Feira é a mesma da Alemanha. Imagino que com o desejo de conferir uma identidade visual à Biofach, a opção é por ela ser igual em seu desenho em qualquer parte onde é realizada. Perde a própria feira que não aproveita as identidades estéticas locais de países como Brasil, Índia ou China. Mas imagino que os organizadores não concordam com esta minha última frase.
Geodésica demonstrativo
Menos mal que organizaram em um espaço na entrada uma feira de sementes e variedades locais. Está sim, com menos rigor importado e com mais cara de estarmos na Índia. No espaço exterior, sobre o gramado, uma espécie de tenda, chamada de Geodésica, busca demonstrar técnicas e hábitos locais relativos a adubação, plantio, construção e alimentação.
Por falar em comida, só vou dizer que estou no céu. A culinária indiana é a minha favorita, e estou me deliciando com a orgia de temperos que está presente em cada prato. Aqui no Congresso temos as refeições, todas locais e orgânicas, servidas em bandejas e pratinhos feitos com material natural facilmente decomposto, além de colheres e garfos de madeira leve. Isto sim é luxuoso. Aliás, nestes três dias aqui na Índia vejo o luxo e a pobreza muitas vezes de mãos dadas. Não estou falando do fato de ser um país de contrastes, ainda mais do que o Brasil, com a opulência de poucos convivendo diariamente com a pobreza de muitos. 
Agricultores descansando
Falo na pobreza que expressa seu luxo na qualidade da comida, na gentileza do chá oferecido, nas cores das roupas, no sorriso em meio à adversidade. Sim, posso ver isto em outros lugares, e vejo, mas aqui parece ainda mais nítida esta equação poética que coloca o luxo no mesmo lado da miséria. Definitivamente a Índia é um luxo.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Nova Delhi e Agra, 07 de novembro de 2017.


Olha o grau... eu no Taj Mahal...
Cheguei hoje pela amanhã em Nova Délhi. Ficarei doze dias aqui entre o Congresso Mundial de Agricultura Orgânica e a Assembleia da IFOAM, a Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica. E algum passeio, afinal estou na Índia.
Taj Mahal, vista de trás.
Meu voo foi por Londres e de certa forma achei emblemático fazer o trajeto feito pelos colonizadores ingleses durante os duzentos anos do mais inusitado processo de dominação da História, com a minúscula Grã Bretanha dominando um quinto da população do planeta, com um diminuto exército, muito glamour e, sobretudo, autoconfiança, derivada da, para os ingleses, indubitável superioridade.
A julgar pelo voo da British Airways, esta tal superioridade, se alguma vez existiu, acabou.
Estou animado com a possibilidade de voltar aqui, onde estive há 23 anos. E confiante que serão dias muito interessantes, para dizer o mínimo.
Hoje já tive uma febre do que serão estes dias por aqui. No melhor estilo não tenho tempo a perder, de manhã fui direto do aeroporto para Agra, conhecer o Taj Mahal. Eu e mais dois amigos, Luiz e Marcelo, que estão aqui para as mesmas atividades que eu.
O Taj Mahal é de fato impressionante. Eleita como uma das sete maravilhas do mundo contemporâneo, apenas lamentei a visita ter sido rápida, já que Agra, a cidade onde ele está localizado, fica a 250 km de Deli. Tivemos menos de três horas de visita. Mas já valeu!
Taja Mahal, gente e sol se pondo.
O que é o Taj Mahal? Um Mausoléu. Um Rei mongólico, povo que dominou a Índia ainda antes dos britânicos, perdeu uma das suas três mulheres, dizem que a que ele mais gostava. Ela morreu em trabalho de parto e no leito de morte ele prometeu construir um túmulo que não permitiria que a memória dela fosse perdida. O cara era meio doido mas cumpridor de promessas. O Taj Mahal é visitado por dezenas de milhares de pessoas diariamente. Claro que muitos turistas estrangeiros, mas a grande maioria dos visitantes são indianos.
Uma das construções laterais, uma Mesquita. e eu!
Não vou ficar aqui descrevendo o monumento. Tem muitos sites que fazem isto muito bem. Vou dizer que me impressionou, é realmente bonito. Como o Rei era muçulmano, a construção segue o padrão árabe. E vamos combinar, os árabes são bons na arquitetura. O que mais gosto é que a suntuosidade vem do trabalho manual, pedras talhadas, mosaicos de pedra, detalhes arquitetônicos como as quatro Torres levemente inclinadas no sentido contrário a construção, para que em caso de alguma tragédia elas não caiam sobre ela. Neste caso a construção em mármore também guarda relação com o adjetivo suntuoso, mas outro, prata ou pedras preciosas não são vistas.
Mas o que mais me impressionou acho que nem foi a construção, mas as pessoas. Muita gente. Muita. Este país caminha a passos largos para ser o mais populoso do planeta. Hoje tem um bilhão e duzentos milhões de pessoas, “só” cem milhões menos que a China.
As roupas femininas são lindas!
E as pessoas me impressionam não só pela quantidade, mas pelas roupas, cores, educação, comportamento.
No livro que estou lendo aqui sobre a história da libertação da Índia os autores falam da Índia de Gandhi e das “quinhentas mil aldeias”. Claro que o país vem mudando a passos largos e se ocidentalizando, como todo o mundo. Mas, mesmo sem ter visto nada, arrisco dizer que segue sendo o país da diversidade em todos os sentidos. Em suas quinhentas mil aldeias ou equivalentes bairros e favelas contemporâneos segue sendo dos múltiplos aromas, sabores, fisionomias.
Acabei chegando no meu hotel de hoje, bastante simples e localizado em uma zona Centrica, que me pareceu acolhedora com um visual nada, mas nada acolhedor. É que a mesma descrição que fiz anteriormente tanto instiga quanto assusta. Muita gente de diferentes cores, comidas de rua, gente, fios emaranhados entre os postes, mais gentes, vacas passeando, carros buzinando sem parar, riquixas, bicicletas. É a índia das quinhentas mil tudo...
 Duas noites em avião, quinhentos quilômetros de carro. Vou dormir!

Que atire a primeira pedra quem nunca
foi ridículo na vida...

Mesquita - Taj Mahal

Olha a selfie!!!

Taj Mahal e pessoas.

domingo, 22 de outubro de 2017

Peru e Equador, Agricultura Ecológica e Macacos, outubro de 2017

Etnia Nomatsiguenga, com suas Kushmas com variações
de cor laranja. Foto em Pangoa, Peru.
Aqui em uma cafeteria em Quito, na concorrida e boêmia Praça Foch, pensando nas minhas últimas duas semanas de trabalho entre o Peru e o Equador. Foram oito diferentes cidades. Médias, pequenas, capitais. Além das milhas voadas foram dois mil km rodados entre ecossistemas de Serra Andina e Amazônia, tanto em um quanto em outro país. Todas as minhas atividades giraram em torno da produção e consumo de produtos ecológicos. Em muitos momentos em contato com a população Campesina ou Indígena. Indescritível. Repasso o filme na minha cabeça e me emociono. Mais uma oportunidade de ouro que meu trabalho me deu. Sou grato por isto.
Com as meninas que constroem a
Agroecologia no Peru. Foto em Huancayo.
Desde que saí da Universidade, em julho de 1987, só trabalhei com este assunto. Cerca de trinta anos. O crescimento neste período foi significativo. Vejo isto no meu cotidiano, nos comentários da imprensa, nas redes sociais, nas feiras que frequento, nos convites que recebo para falar do tema, que surgem de diferentes lugares, pessoas e setores. Os dados também demonstram este crescimento. O mercado era inexistente. O primeiro número que lembro surgiu em 1994 e falava de um mercado mundial de quatro bilhões de dólares. Hoje está na casa dos noventa bilhões.
Peru agroecológico e biodiverso!
Uma viagem como esta que acabo de fazer reforça o que digo há anos: não existe um rincão do continente latino-americano onde não esteja sendo desenvolvido um trabalho com Agricultura Ecológica. Pessoas valorosas se esforçando por nadar contra a corrente. Qual a corrente? A imposta pela manipu-lação das grandes empresas. Um exemplo: neste ano a Bayer comprou a Monsanto por 66 bilhões de dólares. Este gigantesco poder financeiro manipula tudo para aumentar suas vendas. Gera o que chamam de informação científica, dita tendências e convida o incauto a ser moderno, consumindo seus produtos.
Mas, como eu dizia, hoje são milhares de pessoas e organizações se esforçando para desenhar outra forma de produzir e consumir, em bases eco-sociais. Nos últimos quinze dias tive mais uma prova disto.
Povo que constrói a Agroecologia em
Cuenca, Equador
Quando comecei a trabalhar com este assunto guardava uma convicção. À medida que um agricultor começasse a trabalhar pelo viés da agricultura ecológica em um determinado local, o vizinho veria, e outro, e mais outro e em pouco tempo, numa espécie de crescimento em progressão  geométrica, todos estariam fazendo como ele. Afinal, porque não? Se produzo bem e mais barato sem o uso de veneno, porque usá-lo? Da mesma forma pensava sobre quem consome. À medida que estas informações fossem sendo repassadas, mais e mais consumidores procurariam os alimentos produzidos sob esta lógica. Afinal, quem quer comer veneno?
Mas não é assim... A produção e consumo de produtos ecológicos cresce em todo lado, mas os mesmos números que atestam este crescimento demonstram nossa marginalidade. Oficialmente a Agricultura Ecológica é praticada em mais ou menos 1% da área cultivada no mundo. Não vou explicar aqui que este número é subdimensionado, mas de todos modos, multiplicá-lo por dois ou três não nos retiraria da marginalidade.
IV Jornadas Agroecológicas em Quito
Não sei responder porque este crescimento não é exponencial. O poder das empresas que mencionei é parte mas não toda a resposta. Os países comunistas, que viveram anos relativamente à margem deste poder, sempre se valeram do uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos em altas doses na sua forma de fazer agricultura.
Minha esperança é a teoria do centésimo macaco. Já ouviram?
Segundo eu sei, mas não tenho certeza, é uma espécie de lenda urbana. Uns cientistas estudando o comportamento de macacos em uma ilha sempre jogavam batatas doces para estes macacos, dos seus barcos sobre a areia. Desta forma os poderiam observar mais claramente. Um dia, a uma fêmea (sempre as mulheres...), chamada Imo, lhe ocorreu lavar as batatas antes de comer. Outros a seguiram, possivelmente porque a batava ficava mais apetitosa. Mas nem todos macacos da ilha a copiaram. 

Evento em Pangoa sobre
Agricultura Ecológica e
Certificação Participativa
Quando o centésimo macaco a imitou os cientistas notaram que em uma ilha próxima, sem que houvesse qualquer contato entre uma e outra ilha, alguns macacos começaram a lavar as batatas. Ou seja, mesmo sem que o exemplo se fizesse visível, as mudanças se multiplicaram quando um determinado número de macacos começou a agir do jeito novo.
Nas sociedades humanas existiria um comportamento parecido?
Tem um biólogo inglês, Rupert Sheldrake, que propõe a hipótese dos campos mórficos. Eu nunca li seu livro e nem vou tentar explicar sua teoria aqui, mas é possível facilmente achar estas informações. O fato é que Sheldrake se propõe a explicar uma mudança social a partir de atitudes em direção à mudança de um determinado conjunto de indivíduos. 
Reunião em Quito, entre acadêmicos e lideranças
de Movimentos de pescadores artesanais
indígenas e campesinos
Vou ter que ler este livro para entender melhor, mas no meu caso se trata de uma hipótese alentadora. Me anima e conheço muitas Imo que, com seus gestos, já começaram a desencadear a mudança na direção de um circuito mais bacana de produção e consumo de alimentos. Mais generoso e menos envenenado. Sempre que provoco alguém a produzir e comer sem veneno, o que tem mutas vantagens e pouca ou nenhuma contraindicação, fico me perguntando: será esta pessoa o centésimo macaco?